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Longevidade floral

No filme ‘Dênis, o Pimentinha’ (1993), o Sr. Wilson, personagem de Walter Matthau (1920-2000), é um jardineiro amador. Durante muitos anos, ele dedica cuidados redobrados a uma planta grandiosa e especialíssima: ela só floresce a intervalos multianuais e, quando o faz, a flor dura apenas alguns minutos de uma única noite. O personagem organiza uma festa em comemoração a evento tão especial mas, graças às travessuras do Pimentinha, termina perdendo a floração e só vê a flor quando ela está murcha.

De fato, algumas flores abrem e murcham em questão de horas. A flores da “glória-da-manhã” (Ipomoea purpurea), por exemplo, permanecem abertas por apenas uma manhã. No outro extremo do espectro, estão as flores de algumas espécies de orquídeas que duram algumas semanas. Como os botânicos explicam toda essa variação na longevidade floral?
A flor é uma estrutura reprodutiva. Nela estão os órgãos sexuais masculinos e/ou femininos.

Na maioria das plantas, as flores possuem estruturas reprodutivas dos dois sexos, mas em outras elas estão em flores distintas ou mesmo em plantas individuais diferentes. A antera é o órgão floral responsável pela produção do gameta masculino e seu empacotamento, formando o grão de pólen. Os grãos de pólen produzidos por uma flor precisam viajar até outras flores. Nessa viagem o pólen pode ser transportado por insetos (abelhas, borboletas, mariposas, besouros, vespas etc), aves (beija-flores), mamíferos (morcegos etc) ou por agentes físicos (vento, água).

A viagem dos grãos de pólen pode ser rápida ou longa, estando eles programados para sobreviver a essa jornada. O ovário é o órgão responsável pela produção dos óvulos que contém os gametas femininos. O estigma é a estrutura receptora de pólen. O grão de pólen deverá cair sobre o estigma, onde terá condições de germinar, para penetrar no tecido estigmático e alcançar o óvulo, dentro do ovário e fertilizá-lo. Após a fertilização, o ovário passa por transformações e passa a ser chamado de fruto, onde se desenvolvem as sementes, que eventualmente darão origem a novos descendentes.

A longevidade floral é o período de tempo durante o qual a flor permanece aberta e funcional, podendo então dispersar e/ou receber grãos de pólen. Algumas plantas aceitam o “casamento entre irmãos”, ela aceita que os óvulos sejam fertilizados pelo seu próprio pólen. Outras, no entanto, não aceitam e esperarão pela chegada de pólen vindo de outro indivíduo. O segundo caso pode ser mais demorado e, por conta disso, a flor pode permanecer aberta e funcional por um período mais longo. Em contrapartida, isso implica no aumento da variabilidades entre a prole, o que pode ser biologicamente vantajoso.

Esse comportamento de sustentar flores por mais tempo pode ter contribuído para que certas famílias, como as orquídeas e as asteráceas (margarida, dália, girassol etc.), tenham se tornado particularmente numerosas e diversificadas. A flor não é um órgão fotossintético, sendo basicamente uma estrutura importadora de recursos produzidos e elaborados nas partes vegetativas da planta (folhas, raízes, caule). Isso impõe limites ao modo como as plantas equilibram a produção de mais flores novas frente à manutenção de flores velhas por mais tempo.

O próprio lugar onde a planta vive pode favorecer o surgimento de plantas que produzem flores que vivem muito tempo. Em lugares onde os polinizadores são raros, como em altas altitudes, as flores podem viver mais tempo, à espera de grãos de pólen trazidos por algum visitante. As atividades humanas podem, ainda, interferir em todo esse cenário. Hábitats fragmentados, por exemplo, podem aumentar ainda mais a raridade de polinizadores especializados e que já são naturalmente raros. Se o “casamento” não ocorre, as sementes não são formadas e a população de plantas pode diminuir ainda mais de tamanho.

Se você quiser saber qual é o tempo de vida de suas flores preferidas, amarre uma linha colorida (linha de bordar ponto cruz, por exemplo) em alguns botões (se necessário, use linhas de cores diferentes para identificar botões individuais). Quando eles abrirem, registre a data e monitore o que acontece nos dias subseqüentes. Fique atento, pois o tempo exato de duração pode variar mesmo entre flores de uma mesma planta e/ou as condições de crescimento. No fim das contas, esse é apenas mais um capítulo do trabalho dos botânicos que buscam desvendar os mistérios do mundo das flores.


Autor: Marinês Eiterer




 
 
 
 
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